Não me abandone jamais - Kazuo Ishiguro [RESENHA] [LIVRO x FILME]

by - maio 06, 2019


Não me abandone jamais é um dos livros mais recentes do autor Kazuo Ishiguro. O autor ganhou em 2017 o prêmio Nobel de Literatura devido a grande força emocional presente em seus romances. Aqui no Brasil os livros do autor são publicados pela editora Companhia das Letras.

Esse livro é narrado por uma mulher chamada Kathy H. Ela tem sido uma “cuidadora” por mais de 10 anos, e ao final do ano vai finalmente se aposentar como “cuidadora” e se tornar “doadora”. Essa mudança em sua vida faz com que ela sinta necessidade de voltar às memórias do passado e relembrar como foram seus dias em Hailshan e no Casario acompanhada de seus dois melhores amigos Ruth e Tommy D. 

Vamos acompanhando junto com Kathy essas lembranças e descobrindo diversos segredos que circundavam a vida desses personagens durante sua infância e adolescência. Também vamos descobrir a real função de cuidadores e doadores e entender um pouco mais porque Hailshan não era um simples internato como todos os outros. 

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Esse livro estava na minha lista de “12 livros para ler em 2019” e assim que vi que ele estava disponível no catálogo da Biblioteca da minha cidade eu fui emprestá-lo para poder ler! Conheço várias pessoas que consideram esse livro um dos favoritos da vida e tinha altas expectativas para essa leitura, acho que por isso acabei me “decepcionando” um pouco. 

Nesse livro vamos conhecer bastante a história de Kathy H., Ruth e Tommy D. Também vamos nos deparar com outros personagens, mas o foco da história gira em torno desses 3 amigos e de sua vida em Hailshan e posteriormente no Casario. Hailshan é um internato que cuida das crianças até os 16 de idade, eles possuem um estilo de vida bem diferente nesse lugar, e são incentivados a sempre praticar arte e a entender os sentimentos. Desde o começo, fica claro que esses estudantes não são como as pessoas normais, eles têm algo de diferente, de especial, mas isso é explicado somente ao longo do livro. 

Esse foi um ponto que no começo me incomodou, mas que depois eu comecei a gostar: o autor não explica nada diretamente para você. Você vai descobrindo as coisas de maneira orgânica, com os próprios personagens falando naturalmente sobre isso. O momento em que ocorrem algumas contextualizações sobre o que aconteceu e como esse universo funciona vem só nas últimas páginas, para meio que confirmar tudo aquilo que já tinha sido falado indiretamente nos outros capítulos e você poder acabar o livro com a consciência de que entendeu tudo certo. 

Como eu disse, no começo isso fica confuso, porque você não consegue compreender algumas coisas e fica meio perdido na história, mas acredito que a intenção do autor tenha sido nos passar a visão dos personagens a todo tempo, então você só começa a compreender efetivamente o que são essas pessoas, quais as funções delas e o que é Hailshan, quando os personagens são maduros o suficiente para compreender isso também. 

Essa falta de contextualização das regras presentes no mundo em que se passa a história faz com quem algumas coisas pareçam “falhas da história”, eu por exemplo, sempre ficava me questionando por que os personagens não simplesmente fugiam de seu destino. Sei que esse não era o foco do autor, mas acabam surgindo essas duvidas que ficam sem repostas e acabam se tornando pequenos buracos de compreensão e empatia.

O livro traz vários questionamentos sobre amor e amizade ao longo da história, mas acredito que um dos questionamentos mais importantes só ficou realmente claro e recebeu foco muito no final do livro, que é o questionamento de o que nos torna realmente humanos e nos diferencia de outras criaturas, e até que ponto o ser humano fecha os olhos para as coisas, desde que isso vá trazer benefício próprio a ele. Isso foi realmente discutido durante um dos últimos capítulos do livro e gostaria de ter tido mais contato com essa abordagem ao longo da história, teria feito a leitura ser muito mais interessante. 

O livro é muito bem escrito e os personagens são interessantes de se ler. Eles têm particularidades e são bem diferentes entre si, o que torna o trio de amigos muito completo. Porém, eu achei os personagens muito frios e “direto ao ponto” e não sei se isso tem a ver com o que eles realmente são ou se é um estilo de escrita do autor. Essa frieza fez as relações entre eles parecerem muito artificiais as vezes e não consegui criar uma grande simpatia por essas relações.

Reconheço a qualidade da história e da escrita, mas acredito que já tenha lido outras histórias com questionamentos parecidos que me cativaram mais, e acho que esperava encontrar algo revolucionário nessa história depois de ver tantas pessoas enaltecendo esse livro. Acho que essa alta expectativa que eu criei fez com que eu me “decepcionasse” com essa história. Apesar disso a leitura foi prazerosa e interessante, e fiquei com curiosidade de ler os outros livros do autor e ter mais contato com essa escrita que realmente me cativou.

Nota do livro: ★★★

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Eu descobri por acidente que esse livro foi adaptado para o cinema. Enquanto procurava sobre o livro acabei encontrando a adaptação. O filme leva o mesmo nome que o livro e não está disponível em nenhuma plataforma de streaming acessível no Brasil, mas pode ser alugado pelo YouTube Filmes ou pela Google play filmes pelo valor de R$ 11,90, apenas na versão dublada.

O filme teve algumas alterações para melhorar a compreensão da história e tornar mais viável a adaptação. A maioria dessas mudanças eu acho que ficaram boas e cumpriram o papel de entregar a história do livro, porém, as mudanças que fizeram com o personagem da Ruth não me agradaram muito. Não sei se eu interpretei mal durante a leitura, mas a Ruth dos filmes foi tida como a “megera” da história, tendo umas atitudes que achei muito nada a ver com a essência da personagem. A história de amizade da Kathy e da Ruth é tão importante no livro quanto o romance envolvendo o Tommy, mas no filme eu enxerguei as duas mais como colegas/inimigas e não gostei tanto desse lado.

Tirando isso, achei o filme mais emocionante que o livro. O elemento visual ajudou a criar o vínculo e trouxe mais emoção para os personagens que no livro eu considerei meio frios. Você sofre pelo destino deles e gostaria de ter o poder de mudar as coisas. 

Quanto as explicações de quem são eles e o que está acontecendo naquele momento da história, o filme é tão vago quanto o livro. Ele apresenta uma possível solução para o questionamento que tive no livro de “porque esse pessoal simplesmente não foge”, mas nada muito certo. Ele tem a mesma atmosfera de “tire suas próprias conclusões” do que o livro, e isso pode não agradar muita gente. 

Se fosse para recomendar um formato para você conhecer essa história eu recomendaria o livro. Acho que a relação da Ruth e da Kathy tem um foco maior e é tratada de uma maneira mais real, o que torna a experiencia de leitura mais agradável. Porém, o filme é uma excelente adaptação, e é suficiente para você compreender a essência dessa história e absorver seus questionamentos.

Nota do filme: ★★★

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