Fragmentados - Neal Shusterman

by - maio 20, 2019


Fragmentados é o primeiro volume da série “Unwind”, escrita pelo autor Neal Shusterman. Aqui no Brasil somente os primeiros dois volumes da série foram publicados pela editora Novo Conceito, e não há previsão de continuação da série por aqui. O autor tem uma outra trilogia que está sendo publicada pela editora Seguinte, a série Scythe, que até agora conta com o primeiro e o segundo volumes traduzidos para o português. Para os assinantes do Kindle Unlimited, o livro está disponível gratuitamente no catálogo!

Esse livro se passa em uma realidade em que foi aprovada uma lei chamada Lei da Vida, que determina que não pode haver abortos desde a concepção. Porém, os pais tem direito de arrependimento a partir do momento em que os filhos completam 13 anos, e podem optar por fragmentá-los. O processo de fragmentação consiste em dividir a pessoa em vários pedaços, que de alguma forma ainda conservarão a vida do fragmentado e serão utilizados em transplantes para outras pessoas. Nessa história vamos acompanhar a jornada de 3 jovens de realidades bem diferentes, mas que tem em comum o fato de que vão ser fragmentados. 

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Esse foi um dos livros que li para a última Maratona Desencalha e foi uma experiencia incrível! Eu já conhecia o autor por conta de sua outra obra, a trilogia Scythe, que sou completamente apaixonada, então já imaginava que iria gostar bastante da história e do estilo de escrita.

Para quem leu Scythe a história tem a mesma atmosfera, uma distopia que encara a morte de uma maneira diferente. Porém, aqui temos a realidade das fragmentações. É uma doideira quando você começa a ler o livro, porque eu achei simplesmente um absurdo a ideia de você pode matar seu filho aos 13 anos mas não poder realizar um aborto ou usar pílulas anticoncepcionais. Além disso, tem várias outras regras que determinam a vivência nesse mundo, como a regra da cegonha e a existência dos Dízimos.

Vamos acompanhar 3 casos de fragmentação diferentes: Connor é um garoto de 16 anos que vai ser fragmentado pelos pais por seu comportamento rebelde na escola; Risa é uma menina de 16 anos que foi criada por uma instituição de acolhimento para crianças órfãs ou abandonadas e foi selecionada para fragmentação pois não tinha nenhum atributo muito marcante ou especial; e Lev é um garoto de 13 anos que é um Dízimo da família, ou seja, é uma oferenda a Deus. Eles acabam se encontrando e cruzando seus caminhos durante a fuga de Connor e suas vidas mudam e se entrelaçam para sempre. 

O livro traz o conceito da fragmentação para abordar vários aspectos da nossa relação com a vida e com a morte. Um ponto parecido com o Ceifador, é que as pessoas vivem por muito mais tempo que o normal, pois os seus órgãos podem ser simplesmente substituídos por outros melhores e mais funcionais, então o jeito como as pessoas encaram a vida fica um pouco afetado por essa falta de “perigo”.

A lei da vida veio como o fim para uma grande guerra civil que dividiu pessoas em dois grandes exércitos, o Pró Vida e Pró Escolha. A lei da vida pode ser interpretada como uma grande crítica à realidade em que vivemos agora. A discussão sobre a questão do aborto está cada vez mais presente na nossa realidade, e a Lei da Vida nesse livro ilustra de forma mais impactante o argumento dos “pró vida” hipócritas que são contra o aborto, mas não se importam com que condições essa criança vai viver após nascer. A Lei da vida traz essa hipocrisia de maneira escrachada: você não pode abortar pois a vida é sagrada, mas pode decidir fragmentar seu filho aos 13 anos e se livrar dele para sempre.

Como a fragmentação funciona não fica muito claro nesse volume, apesar de acompanharmos o processo sendo realizado em um personagem, não fica claro se a vida realmente permanece com a pessoa ou se é só uma desculpa para agradar aos pró vida. Fiquei muito curiosa para ler os próximos e descobrir mais como funciona esse processo e como aconteceu a Guerra Civil que desencadeou a criação da Lei da Vida.

Esse é um livro que se eu não soubesse que possuía outros volumes eu diria que é um livro único. Ele tem uma história completamente estruturada, e acredito que não seria uma experiencia incompleta ler somente o primeiro. É um livro com uma história fechadinha e sem nenhuma ponta solta, e vou apenas procurar os outros porque realmente gostei da criação do universo e quero saber mais sobre ele.

Fragmentados é um livro que nos faz questionar nossas crenças e repensar a maneira com que enxergamos a nossa relação com a vida humana. É um daqueles livros que você termina e fica horas digerindo tudo o que leu e algo em você muda para sempre. Recomendo demais para todos os fãs de Ceifador ou de distopias com um grande viés social e com discussões bem polêmicas. Com certeza um dos livros que mais gostei de ler esse ano!

Nota: ★★★★★

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