Precisamos falar sobre o Kevin - Lionel Shriver [RESENHA] [LIVRO X FILME]

by - abril 29, 2019



Precisamos falar sobre o Kevin é uma das obras mais conhecidas da autora Lionel Shriver, principalmente após ter ganhado uma adaptação para o cinema. O livro foi escrito em 2003 e o filme estreou em 2011. Aqui no Brasil o livro é publicado desde de 2007 pela editora Intrínseca.

Esse livro é um compilado de cartas escritas por Eva, mãe de Kevin, direcionadas ao marido Franklin. Ao longo das cartas, Eva narra, de maneira quase cronológica, vários momentos de sua vida familiar, desde quando eram apenas um casal sem filhos, até os tempos atuais. Todas as cartas de Eva têm um teor de “desabafo” e são uma tentativa não só de explicar melhor ao marido seu ponto de vista da história, como de tentar entender o que levou Kevin a cometer o assassinato em massa em sua escola. 

Ao longo das cartas vamos conhecer bem Eva e Kevin e como a relação dos dois era conturbada. É uma leitura que trata de maternidade de uma maneira bem nua e crua, uma abordagem totalmente diferente do padrão em relação ao assunto. É uma história que aborda muito as relações humanas e o comportamento social, e faz várias críticas ao modo de vida que a sociedade busca atualmente. 

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Que tarefa difícil falar sobre esse livro. Primeiramente, vou começar pelos pontos técnicos que são bem mais fáceis de pontuar do que essa história. O livro é dividido por cartas, cada uma com uma data diferente, todas escritas pós “a quinta-feira” em que Kevin cometeu um assassinato em massa em seu colégio. Essas cartas são bem extensas, o que torna os capítulos poucos e longos. Isso é um ponto negativo para mim, pois eu tenho mania de pautar minha leitura pelos capítulos, e capítulos longos me desanimam muito e acabam diminuindo meu ritmo de leitura. Ainda mais que li esse livro no kindle, toda vez que mudava de capítulo e via ali embaixo “tempo restante no capítulo: 20 minutos” eu chorava por dentro kkkk.

Outra coisa que acho importante destacar é que a linguagem do livro é bem “complexa”. Apesar de serem cartas íntimas de Eva para o marido Franklin, a linguagem que Eva usa não é nada coloquial. Ela fala de maneira muito elaborada e usa termos e expressões bem difíceis de entender. É um daqueles livros que você tem que estar com uma atenção boa na história, senão você lê uma frase toda sem realmente entender o que aquilo queria dizer. Mas acredito que essa linguagem possa ter sido escolhida de propósito, para causar ao leitor um desconforto não só psicológico como físico ao ler esse livro. Você não se sente confortável nesse livro em momento algum e o vocabulário colabora muito para isso. 

Agora, vamos a história. Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que conversou muito comigo em alguns pontos. Eu sou uma pessoa que nunca quis ter filhos, nunca vi a maternidade como algo bonito e essencial na vida de uma mulher, e ler sobre uma personagem que tinha os mesmos pensamentos que eu foi algo inédito na minha vida. Todos os livros onde o assunto é abordado geralmente seguem o padrão clássico de “isso é a melhor coisa que vai acontecer na sua vida INTEIRA” e achei muito interessante ler uma versão onde a maternidade é abordada sobre outro ponto de vista, mais semelhante ao meu. A Eva nunca quis ser mãe, mas acabou tomando essa decisão levada pelo impulso e pela necessidade de se provar capaz. E ao longo do livro ela se arrepende diversas vezes de ter tomado essa decisão e nos mostra uma realidade da maternidade que as pessoas não falam tanto. 

Além dessa questão da maternidade, o livro mostra muito como as mães são tidas como culpadas pelos erros de seus filhos. Ao longo da história vamos conhecendo o Kevin pelo ponto de vista da mãe e vamos descobrindo o quão manipulador ele era desde criança, demonstrando comportamentos agressivos e apáticos desde sempre, talvez uma forma de alerta sobre o que viria acontecer no futuro. E a todo tempo as pessoas culpam Eva pelo fato de Kevin ser assim, inclusive ela mesma se culpa em diversas partes do livro. E é muito doido, porque apesar de o livro apresentar essa crítica ao fato das mães se tornarem culpadas pelos erros de seus filhos, muita teoria fora do livro segue culpando Eva arduamente, parece que as pessoas não leram o livro.

É muito triste ver que a sociedade sempre busca um motivo para culpar a mulher. Que as escolhas tomadas pelas mulheres nunca são as corretas ou as suficientes. Somos tidas como loucas, histéricas e exageradas, e somos culpadas pelos erros de todos ao nosso redor. “Ah se ela fosse uma mãe melhor para ele”, “Mas também, com uma esposa dessa”, “Nossa, ela não cuida direito do marido e dos filhos”. Existe sempre uma mãe ausente ou uma esposa relapsa pronta para levar a culpa pelos erros dos homens a sua volta.

A personalidade do Kevin também é algo muito interessante de se ler. Ver o desenvolvimento dele ao longo dos anos e tentar encontrar pontos que foram cruciais para a “quinta-feira” é uma experiência bem diferente. Nunca tinha tido contato com um personagem nesse estilo e foi uma novidade para mim. Também é interessante ver o Kevin pós “quinta-feira” evoluindo ao longo das conversas com Eva, chegando até a se questionar sobre o que o levou a fazer isso.

Minha experiência lendo esse livro foi boa no geral. Ele foi um livro bem mais lento de ler, e demorei um pouco para engrenar na história, mas gostei muito das reflexões que o livro propõe e como ele aborda diversos pontos. Os casos de adolescentes que cometeram assassinatos em massa em seus colégios foram poucos aqui no Brasil, mas é uma realidade muito presente na vida dos americanos que possuem o porte de armas liberado. E é muito interessante ler todos esses acontecimentos sob o ponto de vista da mãe de um dos assassinos, mesmo que seja uma história de ficção e meio distante de nossa realidade. É uma leitura que talvez não agrade muita gente, mas que vale a pena ser feita para tentar compreender um pouco mais a mente e a vida dessas pessoas, e para se questionar sobre vários aspectos da nossa vida em sociedade.

Nota do livro: ★★★

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Assim que acabei o livro eu fui atrás de assistir o filme e a primeira coisa que acho importante falar é que não tem esse filme em lugar nenhum. Eu não o encontrei na Netflix nem no Amazon Prime, não tinha em nenhum canal de tv por assinatura e não está disponível para compra ou aluguel na google play filmes. Cheguei até a pesquisar se teve alguma proibição do filme no Brasil, mas não encontrei nenhuma notícia sobre isso, se alguém souber conta aqui nos comentários. Enfim, após horas procurando em meios legais de assistir ao filme, eu encontrei o filme disponível no youtube, mas somente dublado e acabei assistindo por lá mesmo. 

Eu já tinha começado a ver esse filme quando ele estava disponível na Netflix e acabei abandonando, e ao rever o filme eu compreendo porque fiz isso. Eu acho que essa é uma história que não funciona para o cinema. Não desmerecendo o filme, eu acho que ele fez o melhor que pode para adaptar um livro tão complexo, mas a adaptação não faz jus a história na minha opinião. Como você não tem a Eva narrando os acontecimentos, eles escolheram cenas mais importantes para a história e simplesmente agruparam todas as elas em um emaranhado muito doido.

O filme intercala presente e passado, assim como no livro, mas é praticamente mudo e as cenas são bem desconexas, não dando profundida em algumas partes que eu acho cruciais para a história. Você não consegue entender o que realmente acontecia entre Eva e Franklin por exemplo. Nunca fica claro o quanto ele duvidava dela e o quanto a fazia se sentir mal por sua relação com Kevin, e isso é muito importante para a história. A relação deles com a filha mais nova também é muito diferente da retratada. 

Como eu disse antes, o filme fez o melhor que pode para adaptar essa história, mas ainda assim acho que não foi uma boa adaptação. Ficou uma história muito rasa e desconexa, onde você não consegue realmente compreender todos os dilemas que são o cerne dessa história, não dando nem espaço para criar vínculo com os personagens. 

Se for para te recomendar apenas um formato para conhecer essa história, eu recomendo definitivamente o livro. Apesar de ser bem denso e meio lento, você consegue compreender muito melhor os personagens e seus dilemas internos, e você consegue ver muito mais significado nas coisas ao longo da história. O filme não é algo muito linear e agradável, e talvez seja só um bom complemento para a leitura por ter o estímulo visual, mas sozinho não acredito que ele faz um bom papel em contar essa história.

Nota do filme: ★★

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